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A criança que tem tudo

A criança que tem tudoLembranças, emoções, prazer e frustrações infantis. Quando se trata de comprar, muitos sentidos servem de isca ao anúncio publicitário. Trazendo à tona as lembranças de infância compramos algo, muitas vezes inútil e dispensável, para atualizar nosso presente com episódios da infância. Outras vezes fica-se atrelado à determinada marca, pois traz de volta uma experiência do passado.

No instante em que uma mulher compra uma roupa ou um homem sai da concessionária de carro novo, a atividade cerebral se altera e regiões específicas do cérebro reagem. Na cabeça do consumidor compulsivo a equação custo X benefício não é calculada há tempos. O que conduz à aquisição de um novo celular é, em último caso, que se cumpra minimamente a função essencial de fazer uma chamada telefônica. Consumismo com a promessa de prazer e felicidade como a droga também promete. E nas crianças? Como o consumismo age?

Educar os filhos representa formar cidadãos cumpridores de regras e responsabilidades. Adultos de caráter que o futuro irá revelar. E é atribuída aos pais a tarefa de conduzir e ensinar com ações diárias.

De brinquedos  à grifes eletrônicas com tecnologia de ponta, a criança e o jovem vivem submetidos à um perigoso apelo publicitário desejando comprar pelo simples impulso. Conheci crianças “entupidas” de brinquedos sequer manuseados algumas poucas vezes. O ato de comprar age de forma similar ao efeito de uma droga que vicia e conduz à um resultado devastador em pouco tempo. Prazer imediato o qual, em poucos dias, não mais satisfaz fazendo retornar a angústia e tendo como solução o repetido ato de comprar. Crianças com um ou dois brinquedos, cujos pais não possuem recursos disponíveis para tantas compras, se apegam à seus brinquedos como conquistas e fazem de uma simples boneca, por exemplo, uma extensão de sua própria vida dando asas à criatividade e à fantasia.

Fabricar brinquedos e jogos cria a possibilidade de desenvolver adultos habilidosos, integrados e com foco. Por ouro lado, brinquedos que exigem a passividade são nocivos, emperram o desenvolvimento e intensificam a inquietação na criança. Tornam-se pessoas em permanente estado de insatisfação.

Saber dizer não ao impulso consumista do filho é tarefa dos pais. É preciso abrir espaço para a criança se desenvolver sendo tratada com respeito. Afinal, dizer sim à todos os desejos não significa ser bom pai ou boa mãe.

Pais permissivos adolescentes sem limites

Pais sem controle adolescentes sem limites

Considero condenável qualquer tipo de recompensa ou troca com adolescentes como forma de pagamento. Presenciei na clínica, adolescentes corrompidos pelos próprios pais e desesperados por conflitos pessoais beirando à uma tendência anti social enquanto os pais me diziam: “Não sei porque ele está assim. Ele tem de tudo!” Aquela máxima ostensiva de poder utilizada pelos pais, “se passar para a faculdade vai ganhar um carro” prostitui o jovem e o preço desse ato há de ser cobrado, em um futuro próximo com fatura alta. Pais que compram a conduta dos filhos não ensinam nada além da corrupção.

Todo o dever que o jovem possui frente aos pais e à sociedade de forma geral, quer seja estudar, praticar atividade física, não cometer excessos, não destruir a vida alheia nem os bens públicos, acabam se transformando em moeda de troca pelo direito de “aquisição de bens” prometidos por bom comportamento. Pais corruptores, filhos corruptos, sociedade degradada.

Se pais e mães não ensinam ao filho através do diálogo um posicionamento responsável e atitudes coerentes à isso, o mundo se encarregará de ensinar com o pior método. Transmitir valores e princípios ainda é a melhor herança para as futuras gerações. Despertar os jovens quanto à responsabilidade de sua própria vida e, talvez o mais difícil, o limite da existência dos pais é um bom início de uma conversa franca e bem alicerçada.

Certa vez telefonei para uma amiga cuja filha de 12 anos atendeu ao telefone no horário em que, supostamente, estaria no colégio. Perguntei se a menina estava doente e, para minha surpresa, ela disse que a filha pediu “tão tristinha” se poderia não ir ao colégio naquele dia ao que ela, imediatamente, consentiu.  Fiquei perplexa. Um estudante não escolhe o dia em que vai ao colégio ou faculdade. Talvez, no futuro, a menina pergunte ao chefe se pode faltar ao trabalho. Ou não pergunte nada ao chefe e falte assim mesmo. Para finalizar esse episódio, a menina não me me pareceu “tristinha” ao telefone.

Pais e mães devem incentivar o interesse dos filhos na vida diária. Não se diz à um filho “você tem que estudar” ou “eu quero que você estude”. À um filho se ensina que “as pessoas vão ao colégio, estudam para garantirem o próprio futuro e que ninguém mais fará isso por ele. E que ele é igual à todo mundo e, portanto, fará o mesmo.” Do mesmo modo natural quando se diz que “na nossa sociedade todos tomam banho”, que “as pessoas devem ser respeitadas” e que “só se atravessa a rua na faixa e quando o sinal está vermelho.” E que “colégio a gente não escolhe se vai faltar ou não. A gente vai todos os dias.” Tudo parece banal, no entanto essencial.

Conselho nunca foi bom para o outro. Serve mesmo para si próprio. Por isso não acredito em livro de auto-ajuda. Só vale para o autor porque deu certo para ele e não dá garantia de ajuda à quem lê. Mas na atualidade uma grande quantidade de pais nunca disse sequer uma das frases apresentadas. O jovem grita por socorro querendo uma direção, os pais não sabem o que fazer e ainda tentam justificar que é rebeldia, falta de educação ou hiperatividade. Tristes diagnósticos domésticos sem fundamento.

Adoção e conflito

“Tenho 40 anos, sou casada e tenho dois filhos. Há sete anos adotei uma menina de 6 anos. No início vivíamos muito bem, mas ela resolveu me ignorar e se aproximar muito do meu marido. Ele gosta da menina como dos outros filhos. Ela finge que não me vê.  Dessa forma foi levantando uma barreira entre nós duas. A situação está quase insustentável. Confio plenamente no meu marido, o considero um pai exemplar, mas nela eu não confio. Várias vezes a peguei falando mal de mim com outras pessoas, inclusive com familiares. Sei que o que ela faz tem a intenção de me despertar raiva e muitas vezes meu marido fica contra mim, inclusive chamando a minha atenção na presença dela e isso tudo tem prejudicado o meu casamento. Ele fica com pena dela, diz que é uma coitada porque nunca teve um pai e uma mãe, pois ficou órfã com 1 ano de idade.”

A adoção de menores é um assunto que, provavelmente, continuará sendo tema polêmico por muito tempo, pois esbarra em impedimentos de ordem jurídica e psicológica. O desgaste sofrido por todos durante o trâmite burocrático ameaça os afetos construídos, às vezes minimamente, correndo o risco de serem desfeitos pela longa espera. As opiniões se dividem: “toda criança adotada é problemática. Você não sabe qual é a genética do adotado, olha que perigo.” Mas também existem aqueles que parecem ser solidários com a causa: “adotar uma criança é um ato de amor, pois muda-se o destino de uma pessoa tirando-a da rua.”  Portanto, adotar uma criança é estar exposto permanentemente, sendo avaliado por um olhar curioso na espera do destino daquele que foi adotado.

A criança, adotada ou não, inventa para si uma família, como um segredo bem guardado, configurando uma nova família, fantasiando diferentes arranjos. Imagina, por exemplo, que não nasceu dos pais com os quais convive; ou nasceu de um pai importante e aquela mulher que ali está não é sua verdadeira mãe; ou que é filho biológico e os irmãos não o são; ou, inversamente, que os irmãos são filhos “legítimos” e ele próprio é adotado. Essas fantasias relacionam-se com a história individual de cada criança e também com o lugar que ela ocupa no desejo dos pais. Você tem dificuldades para se relacionar com a menina e disputa com ela a atenção da mesma pessoa. Por outro lado seu marido tem pena e diz que a menina ficou órfã com 1 ano de idade e nunca teve um pai e uma mãe. E vocês dois? Não são pai e mãe? Se foi adotada, supõe-se não mais ser órfã. Afinal, foi uma adoção ou uma ação social? Seria bom que fossem investigados os motivos que conduziram você e seu marido à adoção. As razões que levam sua filha à esse comportamento podem ser muitas e algumas delas, misturadas: desejo de humilhar um dos pais enaltecendo o outro, rivalidade e disputa por um lugar de destaque na família, o qual ela acredita conseguir através do pai, ou um sentimento ameaçador de abandono. Além disso sua filha tem 13 anos, fase marcada por forte crise de identidade. A relação dos três está muito tumultuada e ninguém ocupa o lugar que lhe é destinado.

Não existe uma “doença psicológica” na criança ou jovem adotado. Todo filho, biológico ou adotado, cria um arranjo familiar a partir das experiências vividas e sente-se adotado dentro de determinada estrutura. No entanto o abandono é traumatizante, a dor não passa com o tempo e o sujeito pode tornar-se vulnerável e, ao mesmo tempo, impedido de formar laços afetivos importantes por toda a vida.

Depressão na gravidez

“Dei à luz em março do ano passado e acidentalmente voltei à engravidar. Sei que este bebê irá afetar psicologicamente o primeiro que tem pouco mais de 1 ano. Como devo prepará-lo para a chegada do irmão? Estou no último ano da faculdade, trabalho e sou dona de casa. A responsabilidade é tão grande que não sei se vou agüentar lidar com tudo isso. Psicologicamente minha mente também está afetada.”

O ciúme entre irmãos aparece, na maioria dos casos, como disputa pela mãe como mencionei em outro post. Com tranqüilidade e segurança é possível fazer com que ele se sinta um aliado nos cuidados com o irmão recém nascido, porém isso não o impedirá de, eventualmente, sentir-se substituído do lugar privilegiado que ocupava anteriormente. Diante disso os pais se preocupam com a possibilidade da criança ser afetada e tentam reduzir os “efeitos traumáticos”.

De modo claro a ansiedade que você vive gira em torno desse acidente. A gravidez, em muitos casos, traz um padrão de comportamento que causa estranhamento. Submersa no meio de tantas tarefas e uma agenda sobrecarregada, existe a possibilidade de uma depressão disfarçada. Toda gravidez, programada ou por concepção acidental, atualiza, mesmo que inconscientemente, a história psíquica dos pais podendo trazer à tona episódios traumáticos, stressantes e conflitantes.

Inquietação, cansaço ou tristeza excessiva, desejo de ficar só ou sentimento de culpa sem motivo aparente são pontos indicativos de uma depressão. Uma grande incidência nesse período ocorre em mulheres com história de depressão e a gravidez indesejada é um fator importante e favorecedor do quadro depressivo. O obstetra preocupa-se com a condição fisiológica da mãe e da criança sem conseguir detectar um comportamento sombrio, pois muitas mulheres silenciam a depressão. Com toda a expectativa em torno da gestante e do bebê é esperado que estejam felizes, satisfeitas e realizadas, dificultando, portanto, o diagnóstico.

É fundamental destacar 2 pontos importantes. O estado emocional da mulher durante a gravidez é condição determinante para o desenvolvimento da criança nos estágios iniciais. Além disso, a impossibilidade em exercer sua função junto ao bebê pode  indicar uma depressão pós parto em decorrência de depressão não diagnosticada durante a gestação. No entanto, a depressão no puerpério pode surgir isoladamente.

A gravidez, desejada ou não, traz os seus temores. Há um significado específico para cada mulher, sendo este significado o que determinará sua condição psíquica durante todo o processo e após o nascimento da criança. Converse com seu médico e peça a indicação de um psicólogo. A chegada de um bebê redefine o ambiente familiar em níveis práticos e em todo o funcionamento da casa, mas principalmente nas relações de afeto entre seus membros. Para cuidar de um bebê, a mãe, certamente, precisa cuidar de si e adaptar-se à nova condição para compreender as necessidades e desejos próprios e da criança.

Estrabismo infantil e realidade paralela.

O site Quero Viver Bem apresenta uma matéria mostrando a dimensão do impacto social que a falta de paralelismo nos olhos pode trazer à crianças de diferentes idades. A pesquisa foi realizada com 118 crianças com idade entre 3 e 12 anos. Separadas em dois grupos etários, os pesquisadores concluíram que as crianças com mais de 6 anos sofrem com a discriminação social, pois o estrabismo é perceptível para as crianças a partir dessa idade. Ao contrário das crianças com menos de 6 anos que não fizeram qualquer objeção quando lhe foram apresentadas algumas fotos de crianças com e sem estrabismo. A pesquisa mostra a importância da intervenção cirúrgica na primeira infância, com a intenção de minimizar os efeitos psicológicos que a visão sem orientação pode acarretar na vida de uma pessoa. Mas além dos efeitos psicológicos posteriores, o que promove o estrabismo? Seria somente um órgão comprometido?

Para surpresa de muitos, os problemas oculares não se distinguem tão facilmente entre uma questão física ou psíquica. Objetivamente, o olho é somente o órgão da visão. Subjetivamente, não. Nosso mundo interno é composto de elementos e experiências adquiridas por todos os sentidos e, obviamente, a visão é um canal de intensas e ininterruptas informações. Quem nunca viu a animação e os olhos arregalados de uma criança passeando na rua em seu carrinho? Adquire-se o entendimento do mundo à partir do que se vê e, portanto, do que é percebido e captado pela nossa atenção.

A criança tem a possibilidade de criar, alucinar outra realidade para conseguir escapar daquilo que a rodeia. Acontecimentos desagradáveis como brigas e discussões no ambiente doméstico ou eventos traumáticos de grandes proporções podem impossibilitar a criança de “olhar” o mundo da forma como é. A criança que  apresenta dificuldades no período de alfabetização é geralmente diagnosticada com problema ocular, dislexia ou hiperatividade  e, mesmo após o encaminhamento ao especialista e consequente tratamento, a dificuldade persiste. Inicia-se, então, o longo e desgastante percurso de professores particulares e “processos corretivos”.

Segundo o pediatra e psicanalista Donald Winnicott, o olho estrábico proporciona tranqüilidade e segurança à criança, pois proporciona a mesma satisfação que tinha na 1ª infância com a proximidade do seio ou mamadeira e, sobretudo, do rosto da mãe a poucos centímetros da sua boca. Para a criança utilizar esse recurso seu meio ambiente deve estar de alguma forma difícil de suportar. Winnicott afirma que o estrabismo é “um compromisso entre a visão subjetiva e a percepção objetiva.” Existe ainda uma forte aproximação do estrabismo com o ato de chupar o dedo e algumas crianças os utilizam seguidamente. Com o objetivo de acalentar, proporciona à criança a tranqüilidade e o prazer do momento em que estava sendo amamentada.

Certamente poucos médicos irão aceitar esse tipo de argumentação, inclusive pelo fato de desconhecerem a dinâmica familiar da criança o que, objetivamente, não importa muito em uma consulta oftalmológica. Porém, pais sobrecarregados ou ausentes por trabalho, doença, depressão ou hospitalização, mantêm a criança afastada de seu convívio impossibilitando o entendimento da noção de afastamento e aproximação real dos afetos e  do mundo que a cerca, comprometendo muito o seu desenvolvimento.

Amigos imaginários


Para quem acredita que os filhos pequenos conversam com “espíritos” e para aqueles que não sabem que esse recurso alivia o sofrimento de muitos. Uma em cada três crianças nutre temporariamente uma relação existente apenas na fantasia – o que não é motivo para preocupação. O curioso é que também adolescentes e adultos, em especial idosos, usam esse recurso para superar fases difíceis. Vivemos tempos em que conversar com gente que nunca vemos não é nada incomum: perambulamos por chats, blogs e twitter e trocamos informações e segredos com pessoas com quem mantemos relacionamentos virtuais, às vezes bastante íntimos. Mas e quando uma criança “cria” um amigo imaginário – brinca, fala e até mora com ele, como se fosse real? Esse fenômeno, que surge principalmente entre 3 e 7 anos, não é tão raro. Quando pais e educadores percebem a existência desses companheiros invisíveis quase sempre ficam preocupados. Uma mãe escreve em um fórum on-line: “Nosso filho de 5 anos tem falado há três dias de ‘sua amiga Pia’. Ela só existe em sua imaginação, mas parece ser absolutamente real para ele. Ele se comporta como se pudesse vê-la! Nós não tivemos esse tipo de experiência com sua irmã três anos mais velha. A amizade com ‘Pia’ parece fazer bem ao nosso filho, mas nós nos preocupamos mesmo assim. Será que devemos deixá-lo com sua fantasia ou tentar convencê-lo a abandoná-la?”.

Mas os pais podem respirar aliviados, pois todos os estudos sobre esse fenômeno chegam ao mesmo resultado: não há motivo para preocupações! Os amiguinhos imaginários têm sido estudados de forma intensiva há muito tempo, nos últimos 100 anos, mas poucos psicólogos se dedicaram a esse tema. E há um ponto em comum: todos concordam que os amigos imaginários estimulam o desenvolvimento das crianças, podem suprir eventuais lacunas afetivas e ajudam na elaboração de questões psíquicas.

Para os mais novos, o amigo “de mentirinha” é quase sempre um companheiro de brincadeiras que pode estar “presente” também à mesa na hora das refeições, ser chamado pelo nome, mas não raramente acompanha a criança durante todo o dia. Alguns pesquisadores afirmam que praticamente todos nós temos um parceiro imaginário em um determinado estágio do desenvolvimento – porém, ele quase nunca é descoberto pelos adultos e a própria pessoa normalmente não se lembra disso mais tarde. Os acompanhantes invisíveis são frequentemente crianças da mesma idade de seus criadores – como, por exemplo, Sebastian Nigge, o amigo imaginário de Madita, personagem do livro de mesmo nome, de Astrid Lindgren. Podem ser também animais, magos ou super-heróis. Alguns cabem no bolso e podem ser levados para todo lugar – como o canguru invisível Pantouffle no filme de Hollywood, Chocolate, de 2000, dirigido por Lasse Hallström.

Revista Mente e Cérebro

Edição 205 – Fevereiro 2010

Para ler a matéria na íntegra:

Amigosimaginários

Ciúmes entre irmãos

“Resolvi escrever para tirar uma dúvida. Não sei se é verdade, mas a psicologia explica porque o filho mais velho sofre em certos aspectos? Será fruto da inexperiência dos pais? Tenho um irmão mais novo. Pessoas que acabam de nos conhecer tem a impressão de que eu sou o mais novo dos dois. E é exatamente o contrário. Não sei se na aparência ou no comportamento. Sou mais expansivo e ele é mais fechado. Já ouvi várias vezes coisas do tipo “nossa, pensei que ele fosse o mais velho e não você.” De alguma forma, isso me incomoda demais. Quando era mais novo fui muito tolhido. Tudo o que eu queria fazer (de saudável, é claro) recebia um não. Não tinha apoio quando ia tomar uma decisão. O não era uma resposta certa. Fui crescendo assim. Por isso sou muito inseguro na hora de tomar decisões. Ao contrário do meu irmão mais novo.”

Você não informa a sua idade nem a de seu irmão. Muito menos a dinâmica familiar, ou seja, se você e seu irmão são filhos dos mesmos pais. Tem outros irmãos? Os pais viviam juntos ou trocaram de parceiros quando você e seu irmão eram pequenos? Diante da escassez de informações vamos olhar somente a situação relatada.

Na infância a relação de dependência dos pais é natural e necessária. A criança deve ser introduzida ao mundo e cabe aos pais nomear tudo o que a cerca. Inicia-se, portanto, um longo aprendizado que continuará de forma independente por toda a vida. Em algum momento essa atenção exclusiva teve que ser dividida com a chegada de um irmão. Esse momento é crucial para o mais velho, pois lhe será apresentada uma nova realidade durante a gestação: “esse é o seu irmãozinho”, “ele também é seu”, “você vai cuidar dele também”. Coisas assim.

Quando nasce um irmão, toda criança sente ciúmes, o que é bastante natural e não há nada de perturbador nisso. Ela é acometida por um sentimento de perigo e, portanto, sente-se ameaçada. A criança, confusa, reage à essa realidade identificando-se com o recém chegado e regride comportando-se como um bebê com o objetivo de resgatar a atenção exclusiva que lhes era destinada anteriormente. Cabe aos pais ajudar a criança a superar esse momento de dificuldade proporcionando acolhimento e adotando uma postura compreensiva em relação ao filho mais velho. A respeito dos ciúmes, esse tipo de conflito tende a se resolver na infância. Superado isso, a criança retorna ao seu desenvolvimento pessoal. Algumas vezes, mesmo com o passar dos anos, o filho mais velho sente-se ameaçado, tem medo de crescer. Um comportamento expansivo pode revelar um desejo inconsciente de permanecer criança e resgatar o que acredita lhe foi tirado como amor, proteção, exclusividade, impedindo-o de situar-se no presente. O ciúme é a única possibilidade de comunicação devido à falta de entendimento sobre o que, de fato, acontece com você.

Todo casal é inexperiente em relação ao primeiro filho. E em relação aos próximos também. Cada filho é de um jeito, é diferente do outro. É único. Porque será que tudo o que você queria fazer tinha um não como resposta? Será que o seu comportamento correspondia à sua idade? Ou será que o seu “comportamento expansivo” era traduzido pelos seus pais como imaturidade e lhe davam uma negativa para protegê-lo? Porque você precisava da aprovação deles para fazer algo que, de antemão, considerava “saudável”, mesmo sabendo que receberia um não como resposta? Responsabilizar-se pelos próprios atos inofensivos e saudáveis mesmo que tenham como resultado o sucesso ou o fracasso pode ser um bom começo. O filho mais velho quer a atenção que lhe é devida, quer o amor dos pais. De fato, você está no lugar de filho mais novo, porém guardar ressentimentos contra os pais ou sentir-se perturbado quando não o reconhecem como primogênito não o ajudará a lutar pelos seus direitos de viver de forma madura e responsável.

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