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Brincadeira de pais e filhos

A idéia de que a brincadeira é essencial para o desenvolvimento ainda encontra resistência. O momento de brincar é fundamental no processo de desenvolvimento. A brincadeira constitui-se um importante espaço onde ocorrem trocas de informações onde é criado um mundo de ilusões e verdades por meio de símbolos vivenciando momentos de alegria, satisfações e angústias inomináveis. Nesse momento único a criança pode se desvelar e nessa experiência lúdica aprende a solucionar situações de conflito. O dimensionamento dessas questões cria a possibilidade de um adulto mais organizado, capaz de saber lidar com o inesperado, tratando com mais habilidade todo tipo de dificuldades.
Neil Postman em seu livro ‘O desaparecimento da infância’ (Ed. Graphia, 1998) sustenta a tese de que as crianças nos dias atuais estejam perdendo a espontaneidade de brincar livremente. De fato com a imposição consumista do mundo cibernético, as crianças encontram dificuldade para brincarem e serem, eles mesmos, os ‘agentes’ e inventores de suas próprias fantasias. A infância não está desaparecendo. Com incentivo do meio em que vive, a grande maioria das crianças é capaz de exercitar sua capacidade de apreender a noção de posse do objeto, a introjeção de valores fundamentais e sentimentos de frustração, perdas e conseqüente superação.
O atual estilo de vida provoca um término prematuro da infância. Deixa-se de ser criança mais cedo. O acesso à todo tipo de informação, desnecessária à tenra idade, a possibilidade eletrônica do brincar e a ameaça urbana impedindo a ‘brincadeira de rua’ não somente aprisionam a criança em seu território doméstico, como também subjetivamente criando entraves em seu desenvolvimento. A dificuldade dos pais em conciliar horários, tarefas e partir, então, para a brincadeira com os filhos, cria uma distância onde um não se reconhece no olhar do outro. A criança acaba desenvolvendo recursos próprios ou sai em busca de um auxílio externo, fazendo com que o abismo fique ainda maior na relação com os pais. Tornar o escasso convívio em momento de alegria é extremamente importante no universo psíquico da criança, mas à essa vivência devem ser agregados os questionamentos próprios de cada idade.

Adoção

Muito se tem mostrado sobre a adoção na atualidade. Uma febre fashion que parece ter
contornos bastante próprios à uma minoria onde são excluídos seus entraves
subjetivos. Tudo como fator compensatório para a realização de um desejo.

O que leva uma pessoa a querer agregar à sua própria vida um outro desconhecido que irá
depender integralmente dentro de um processo dramático bastante diferente do
que é anunciado?

A adoção marca a vida de todos os envolvidos no processo
muitas vezes de forma mais intensa e dolorosa que as dores do parto. Ao
contrário dos manuais de conduta e averiguação das possibilidades de quem
adota, os inúmeros motivos que levam à adoção são os que certamente mais
interferem nessa difícil relação. Brevemente destacarei duas formas de luto
como possibilidade para a decisão da adoção. Como substituição de um filho
biológico que não virá em decorrência da esterilidade do casal ou de um dos
parceiros e como tentativa de superação do luto de um filho morto buscando na
adoção a possibilidade de “dar a luz” novamente.

A ferida narcísica de um casal frente à impossibilidade de se realizarem pela concepção
biológica conduz à decisão da adoção como saída para a relização de um desejo.
Porém um emaranhado de sentimentos irá permear a triangulação. Vivendo à sombra
da lembrança da impossibilidade biológica do casal, o adotado também poderá
promover a cessação de uma infertilidade transitória.

Em outros casos a adoção surge como possibilidade de substituição de um filho morto
criando uma constante comparação e possível ódio inconsciente em relação ao
adotado fazendo com que lhe seja impossível corresponder à uma forte demanda
dos pais adotivos. Uma modificação do Ideal do Ego se faz necessária no desejo
da adoção. Sentimentos inconscientes de culpa em memória ao filho morto e a
ameaça de perda do filho adotado frente à fantasia de ressurgimento dos pais
biológicos podem dificultar a relação dos pais nesse processo.

Um filho na maioria das vezes representa a extensão de uma relação, o desejo mútuo de
prolongamento dos vínculos e troca biológica do casal dando continuidade à
esses afetos. A filiação simbólica faz parte do processo da construção
subjetiva de cada um e não somente daqueles envolvidos biologicamente fazendo
então com que a adoção seja possível e venha a criar fortes laços parentais
mediante cautela e conhecimento do lugar que o filho irá ocupar no desejo do casal.

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